Há vinte anos, comecei minha carreira docente no sertão sergipano. Em Nossa Senhora da Glória, considerada a capital da região, eu cheguei para dar aulas de Literatura e Inglês. Eu, nascido em Recife, mas que havia me criado a partir da adolescência em Aracaju, trazia comigo a ligeireza e o vocábulo das capitais de estado. Ainda precisava aprender o andar, o falar e o jeito de olhar das terras sertanejas.


Cada canto tem seu jeito de entender as coisas, de fazer a vida andar. Cada lugar tem seus costumes. O forasteiro mais desatento vai perder muito se não tiver a humildade e, sobretudo, a sensibilidade de perceber as particularidades. Como forasteiro, precisei me adaptar às senhas e aos códigos do sertão.  O jeito de falar, a forma reverente no cumprimentar o professor, o sorriso de bons anfitriões.


Com o passar das semanas, ao transitar pelas ruas, rodar pela feira do sábado ou sair para curtir o friozinho da noite na praça, o forasteiro passa a ser reconhecido. Já vai se sentindo local.


Mas isso não quer dizer que eu já me sentisse totalmente habituado, já que anos de vivência de urbanas e turbulentas capitais não se desfazem tão rapidamente de nossa alma. Daí a minha estranheza com o costume sertanejo de sempre querer que você entre em sua casa, sente-se à mesa e coma alguma coisa. Eu, sujeito talhado na pressa urbana e nos salamaleques de cortesia de aparência feitos na cidade, recusava sem jeito. À minha recusa, logo vinha a frase: “mas não me faça essa desfeita”. Eu, acabrunhado, constrangido, fazia a tal desfeita sem entender exatamente o que havia feito demais.


A vida levou-me a outros caminhos, cidades várias, mas nada comparável a esse jeito sertanejo de receber. No entanto, passados uns anos, dei por mim e entendi onde residia a desfeita, onde estava o meu erro. Eu não entendi naquele tempo o quão grandioso era o elogio, quão calorosa estava sendo a recepção.


O sertão do Brasil é lugar de gente forte, como definiu Euclides da Cunha. Terra de gente que tem em sua memória coletiva vivência com a árdua labuta e que nem sempre traz o alimento com fartura. Gente que já viveu com escassez. Quem não experimentou dessa dureza na vida, cresceu ouvindo a história de seus antepassados que a viveram. É terra em que comida é bem muito precioso. É terra em que oferecer um prato de qualquer que seja o alimento é a mais bela forma de dizer a alguém: “ você é precioso e bem-vindo aqui, estou dando o nosso melhor”. De fato, recusar isso é fazer uma desfeita. Um pedaço de bolo, uma xícara de café ou um talho de queijo são gestos daqueles que, sem muitas palavras, sabem entoar amor em atos. Hoje eu entendo e me redimo das desfeitas que fiz, mas percebo que eu havia chegado para ensinar, saí levando a mais bela aula de vivência que carrego por toda a vida.