Não sou adepto da ideia de que a profissão docente é a mais imprescindível das profissões. Esse tipo de bobagem circula muito nas homenagens do dia do professor. A frase fácil e rasa de que “o professor é a mais maior das profissões, pois sem ela nenhuma das outras existiria” pode ser até simpática a alguns, mas é profundamente enganosa. Costumo dizer aos meus alunos que a máquina social é como um relógio em que as peças são necessárias ao funcionamento. Sei que é uma comparação limitada, mas nem sempre se consegue a perfeita metáfora. 

Costumo lembrar que sem o motorista de ônibus, eu não teria ido à universidade; sem a senhorinha da limpeza da instituição, as salas de aula não seriam um lugar adequado ao ensino ou sem as funcionárias do restaurante universitário, eu não teria o que colocar no bandejão. Vou além e digo que sem os garis, não haveria ruas trafegáveis para todo o restante de classes trabalhadoras ou patronais. Uma greve dos profissionais de limpeza ou de transporte gera muito alarde e impacto imediatos do que de outras categorias, como, por exemplo, os da educação. Contudo, aqueles trabalhadores são muito mais invisibilizados. Mas isso já é assunto para um outro texto. 

No dia do professor, vemos, sobretudo, nas redes sociais, uma série de homenagens. Muitas dessas tratando a docência quase como um sacerdócio, outras são compartilhamentos de matérias jornalísticas a exibir professores que dão suor em sala de aula decrépitas de lugarejos distantes, romantizando o sofrimento do profissional e dos alunos. Floreiam a dor e a pobreza, todavia não batem às portas dos gestores que se omitem diante de tudo isso. Essa conversa é para outro dedo de prosa. 

Quero hoje recordar um mestre, um saudoso mestre: o Professor João Costa. Fui seu aluno na Universidade Federal de Sergipe. Era considerado por todos o melhor professor de língua portuguesa que já pisou por estas terras de Sergipe. É curioso, no entanto, que mesmo em meu tempo de criança, morando ainda no Recife, eu já ouvia falar dele. Explico: minha mãe, sergipana de Aracaju, havia sido aluna de João na Escola Normal nos distantes anos 60. Ela costumava contar das histórias da adolescência sobre um professor de português, francês e teatro chamado João Costa. Falava com encantamento da capacidade desse homem de prender os olhos e os ouvidos da plateia que tivesse diante de si. 

Anos passaram, mudamos de Recife para Aracaju. Aqui em Sergipe, concluí ensinos fundamental e médio, ingressei no nível superior e me tornei aluno do famoso João Costa. Uma pena, contudo, é que quando o conheci, minha mãe já não estava nesta terra para saber dessa novidade. Entretanto, nunca pude deixar de confirmar a cada encontro didático que ela estava coberta de razão ao se referir àquele professor. Ele parecia um sol irradiando tudo na sala de aula, seu grande palco. 

Mais tempo se passou e, no final de 2010, recebi a última aula do grande professor. Não na sala de aula ou no auditório da universidade. Na casa do mestre. O professor João estava doente. O câncer, cruel inimigo, estava o levando desta vida. Juntei-me a uma amiga, também sua ex-aluna, a professora Lourdes Almeida, e chegamos numa manhã meio opaca à casa de nosso professor, no bairro São José, em Aracaju. Ele não poderia sair deste mundo sem saber que era lembrado, sem saber que era querido. Tínhamos que ir lá. 

O mestre emagrecera bastante, estava há dias sem sair da cama e, como era homem de outra geração pediu desculpas por estar sem camisa. Segurou nossas mãos e começou a falar. A voz, como de se esperar, não tinha mais a força da sala de aula, mas cada uma de suas palavras tinha a força de um titã. Disse ele: “Nós somos dois. Cada um de nós é feito por dois lados. Um lado físico, material, que sente dores. Dores como as que tenho sentido. Dores lancinantes que me tomam de um lado a outro e que me trespassam. Mas há em cada um de nosso um outro lado, um lado imaterial que se alegra com vocês aqui. E elas, as dores, vão embora. Meu coração se alegra”. Confesso que prendi a respiração para evitar o choro. Consegui segurar as lágrimas (ao menos até pisar na calcada, quando desabei). Despedimo-nos do professor João. Aquela seria a derradeira vez, não tempo para uma nova visita: ele se foi pouco depois, dia 30 de janeiro de 2011, um domingo quente de verão. Antes, contudo, em seu leito de morte, nos dera a mais magistral e inesquecível das aulas. Era um professor sol, não tenho dúvidas, por isso também se foi. Como escreveu Gregório de Matos: “Nasce o sol e não dura mais que um dia”. Aquele cumpriu sua jornada, mas a sua lembrança ainda me aquece e ensina.