Certamente o título causará estranhamento, pois se há alguém que busca, até em pedras mínimas, a beleza da vida, esse alguém sou eu. Então, que raio de título você criou para abrir este texto? É só uma questão de unir os pontinhos: a vida é uma merda e, para sobreviver com alguma dignidade a isso, há que buscar toda e qualquer chance de beleza.

A maior beleza desta merda de vida (Beleza? Ora, é o paradoxo, figura de linguagem que dita nossa experiência de estar neste mundo, fazendo-nos sobreviventes em uma realidade na qual os opostos se misturam de tal modo que mal conseguimos reconhecer as partes antitéticas que nela estão… Bem, voltemos ao pensamento…), a maior beleza desta vida é o fato de ela também ser um presente, no sentido mesmo da possibilidade de nascer e de ter a oportunidade de protagonizar a aventura e o desafio de “ser”. “Ser” dentro de um contexto repleto de desumanidade exige esse exercício de buscar as pequenas e as grandes belezas da vida e delas extrair a motivação para que esse “ser” vá se aprimorando, na utópica esperança de um mundo melhor, em que a vida, afinal, se desmerdarizaria. O adjetivo “utópica”, contudo, mostra bem o tamanho do problema.

Não à toa o grande personagem da literatura ocidental é Dom Quixote. É preciso abraçar a loucura e o idealismo para seguir um projeto de vida conjugado pelo verbo “ser”. Só uma carga imensa de sonho e loucura nos dá a carapaça necessária para, tal como Quixote, levarmos milhões de porradas e seguirmos firmes até a hora de nossa morte. Só um profundo desejo de ser gente, de ser Humano (assim, com H maiúsculo) e de abraçar o heroísmo de enfrentar a selva densa e desconhecida nos torna incansáveis e resilientes.

Cabe dizer: a vida não “é” uma merda por si mesma. Infelizmente, nós, os “homines sapientes”, cada vez mais “homines insensibilis”, temos, há milênios, imposto à vida atributos que ao se aderirem a ela corroem seu próprio milagre como conceito. A vida, como somatório de circunstâncias químicas, físicas, biológicas, zoológicas e ecológicas, é um espetáculo de tamanho tal que, para a maioria dos humanos, não é possível pensá-la como um fenômeno meramente circunstancial. Um “Big Bang” aleatório que gerou tudo isso. Daí Deus. E todas as “responsabilidades” que conferimos a “Ele”. Daí também todas as nomeações que o divino recebe nas mais diversas partes do mundo.

Por esse raciocínio, claro está que, sendo Deus (em qualquer uma de suas nomeações) o criador do maior de todos os espetáculos, não faria sentido que essa criação fosse uma merda. Logo, a vida, em si, não é uma merda. Nós é que fazemos dela uma grandessíssima merda quando, em lugar de contribuirmos, com nossa própria criatividade e sensibilidade, para que ela se torne cada vez mais espetacular, insistimos, com nossa paradoxal (de novo o paradoxo) “sapiência”, em matá-la, todos os dias, ao violentar cruelmente sua potência de beleza. Daí, como eu disse antes, o sentido quixotesco de lutar, buscando beleza onde for possível encontrar. E mais, aprender a encontrar beleza, tirando de nossos olhos as vendas que a insensibilidade nos impõe todos os dias, já que o código “de vida” criado pelo ser humano exige que nos acostumemos a só ver beleza naquilo que nos interessa pessoalmente.

A vida é uma merda justamente por isto: estamos nela a partir de um eixo materialista e egocêntrico que nos faz mergulhar na sanguinária disputa por coisas e por “medalhas” totalmente destituídas do espetáculo original da vida. Medalhas que são, na verdade, “merdalhas” que fazem com que nos sintamos “campeões em tudo” – como maravilhosamente traduziu o gênio Fernando Pessoa – e abandonemos, egocêntricos, o desafio de “ser”. Por isso, desprezamos a natureza, matando-a todos os dias; valorizamos a riqueza financeira; criamos religiões para determinar como Deus é e impor o Deus que criamos às outras pessoas; aceitamos e naturalizamos a fome, a desigualdade, os preconceitos e a ganância; unimo-nos a outras pessoas para criar leis na maioria das vezes incapazes de promover justiça, porque são leis nascidas do princípio do “ter” e não do “ser”; sentimos um prazer sádico de rir com os tombos alheios e de competir por pódios que, supostamente, nos conferem “superioridade”; temos grande dificuldade para enxergar o mundo fora do ângulo obtuso de nosso verdadeiro olho: o umbigo; e, não satisfeitos com os mistérios naturais da morte, criamos formas diversificadas de nos matarmos e de matarmos, como eu já disse, o espetáculo da vida em sua dimensão mais ampla, em sua dimensão cósmica.

Não. Este não é um texto niilista, um texto de quem não crê em saídas ou em transformação. É um texto de quem, na prática, busca beleza mesmo nas mínimas pedras (aliás, tenho uma grande no rim direito, que vai me exigir luta quixotesca pelo direito à saúde pública…, mas isso é outra conversa) para poder lembrar do espetáculo original. É um texto sintonizado com esse espetáculo, com o enfrentamento dos gigantes disfarçados de moinhos e que muita gente pensa que são moinhos mesmo, porque ver gigantes é coisa de loucos e de loucas. É um texto de quem lutará até o último suspiro para desmerdarizar a vida, sabendo reconhecer, com o máximo de precisão, os Sanchos e as Sanchas que se voluntariem a estar comigo nessa luta. Um texto de quem quer chegar ao máximo da capacidade de reconhecimento de outros Quixotes que necessitem do meu lado Sancho, par ao enfrentamento de outras lutas. E as lutas de que falo não são sinônimos de enfrentamentos bélicos. São sinônimos de esforço, de empenho, de obstinação (ou de perseverança) por um mundo que dispa a vida desse atributo terrivelmente inserido nela justamente por quem mais privilégios teria para se maravilhar com o espetáculo. 

A vida é uma merda. Eu não. Não sou e não aceito ser uma merda de pessoa. E vocês?