Quem de nós passaria em frente a uma cerimônia fúnebre e com deboche trataria aqueles que se reuniam enlutados? A mera hipótese aqui formulada causa certamente repulsa. Também não se consegue imaginar o quão degradante pode ser uma narrativa destinada a crianças tripudiar, normalizar a dor de nações africanas escravizadas trazidas nos navios negreiros. Recentemente foi notícia o espanto acerca da reedição de uma obra infantil que, em tese, pretendia retratar a vida de Luiz Gama, o advogado abolicionista que viveu entre 1830 e 1882. 

O livrinho descrevia num dado momento que as crianças no porão do navio negreiro se puseram a brincar de “escravos de Jó” e achar engraçada  (pasmem!) a relação com o fato de serem escravizadas também. Ainda mais: usavam as correntes como se fossem cordas para pular. Quem conseguiria dizer que isso é normal? Talvez os autores José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta. A obra que já havia sido publicada pela Editora Alfaguara, está em segunda tiragem sob o selo da Companhia das Letras, o que é de espantar, já que é casa editorial respeitada. Logo que a notícia se espalhou a editora mandou recolher todos os exemplares disponíveis nas livrarias. 

Contudo, quero me perguntar sobre os estragos feitos pela primeira tiragem desse livro “ABECÊ da liberdade: a história de Luiz Gama”. Quantas crianças leram e absorveram como uma esponja essa barbárie disfarçada de história infantil? Quantos exemplares da segunda edição saíram também por aí normalizando a morte e a dor do povo negro? Navios negreiros nada têm de leve ou engraçado, assim como também não têm comicidade nos campos de concentração, nas trincheiras de guerra ou nos leitos de hospital.  

A que ponto chegaremos? Será que breve haverá quem diga que judeus brincavam de “boca de forno” ante a iminência de serem cremados nos campos de concentração? Ou será que teremos quem imite com desdém os que morrem por falta de ar? Ou haverá quem menospreze a dor alheia e diga que “todo mundo um dia morre”? 

Num mundo ideal, teríamos bem espalhado em nosso meio o sentimento de empatia, que é a ideia de se colocar no lugar do outro e pensar no que ele sentiria. O arauto da fé dizia que era necessário amar o próximo como a si mesmo. Mas isso talvez seja régua muito alta à maioria. De qualquer sorte, já seria de bom grado extirpar tanta tolice criminosa, lidando melhor com as palavras sob a batuta da sabedoria popular: “em casa de enforcado, não se fala de corda”. Isso já bastaria.