Quando escrevemos, percebemos mais claramente quantas pessoas diferentes habitam em nós. Somos plurais. Sentimentos, pensamentos e olhares reinventados e inaugurais. Por isso, neste fevereiro de 2021, a mão que escreve esta crônica é a de uma carioca apaixonada por samba que viveu um carnaval com máscara, mas sem qualquer fantasia. Um carnaval jamais imaginado e, no entanto, com carnes tão reais.


Por trás da “máscara negra”, da qual jamais sentirei saudade, o rosto triste de uma mangueirense sem verde nem rosa assistiu atônita às festas da insensibilidade enquanto as estatísticas jorravam seu sangue de notícias de morte e dor. Ali esteve uma mangueirense sem qualquer fantasia: nem as dos desfiles de outrora nem as que significam sonhos. Que sonhos caberão nas festas do desrespeito, nas imagens de gente sem arte que dançou animada pisando em feridas alheias que não paravam de chegar?


Entre o vírus impiedoso que cala os pulmões de tantas famílias e o vírus da indiferença que transformou o carnaval numa festa de demência, que caminhos são possíveis para alcançar mesmo uma pequena alegria? Lembrar os desfiles que, um dia, povoaram o carnaval de cores, trazendo a breve ilusão de ser parte de uma ópera pujante, cujo coração pulsava no ritmo do surdo sem resposta da Estação Primeira de Mangueira? Acreditar na reinvenção da vida quando todas as feridas estiverem cicatrizadas? Deixar que cante forte a canção do exílio de quem se vestiu de máscara para proteger o outro da morte? Como, se mais fortes pareceram os gritos ensimesmados de quem sequer foi capaz de olhar para quem estava ao seu lado?


Não. Não é possível escrever com esperança uma crônica sobre o carnaval que não houve no coração de quem ama, porque o carnaval que houve nas veias de gente infame grita mais alto e gera dor. Dor de constatar que aprendemos tão pouco até aqui. Que somos infinitamente menores do que pensávamos, porque sequer sabemos dar a quem morre a dignidade do respeito.


Em fevereiro de 2021, a carioca mangueirense, que sergipanamente aprendeu a ver seu antigo amor de longe, tornando a tela da televisão uma sementinha de contentamento, porque sabe que há tempos que não podem mais voltar, não teve motivos para comemorar. Poderíamos ter feito um não carnaval com máscaras e sem fantasias. Mas apenas sem as fantasias próprias do carnaval. Entretanto, no momento em que as máscaras necessárias deste carnaval ausente foram ignoradas em nome de festas
inclementes que espargiram mais vírus no ar, fantasias de sonhos se rasgaram e mais mortes foram semeadas.


Há quem recrimine a nudez do carnaval. Há quem cometa a ignorância de associar a COVID-19 ao inesquecível desfile que a Verde e Rosa fez em 2020, resgatando o Jesus da gente, e tomando para si a palavra de Amor que muitos cristãos desaprenderam a ponto de ostentarem, sem culpa, gestos de armas em nome de um falso Cristo. Há quem despreze a ciência e fira qualquer projeto de paciência de quem esteja atento ao que pede este momento trágico de pandemia. Incrivelmente, há quem ostente a bandeira da violência e do descaso como se, por trás dela, houvesse a mínima possibilidade de Deus.


A nós, que vivemos, de fato, um carnaval com máscara e sem fantasia, só resta dizer: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34), mesmo sabendo que “eles” e “elas”, que se aglomeraram, infringindo leis e atropelando sentimentos e responsabilidades, sabiam muito bem o que estavam fazendo.


A quem se horroriza com a nudez dos corpos, uma advertência: nada mais revelador que a nudez da crueldade, que violenta a esperança, espalha a intolerância e mata. Nunca as cinzas de uma quarta-feira significaram, tão explicitamente, o fim. Não do carnaval. Este reviverá em outros tempos. Os da bonança. Mas o fim de milhares de pessoas que morrerão porque houve quem recusasse a máscara para viver sua perversa e egoísta fantasia de festa em tempo de funerais.