Costumamos ouvir metáforas que traduzem a vida como um caminho, uma estrada, uma viagem. Três poetas, um italiano e dois brasileiros, costuraram bem essas palavras em nosso imaginário. Dante Alighieri, com sua abertura de “A Divina Comédia”, Olavo Bilac com seu soneto “Nel mezzo del camin”, numa clara referência ao poeta florentino,  e , por fim, Carlos Drummond de Andrade que revisitou, em “No meio do caminho”, e refez em moldes modernistas sua releitura do soneto de Bilac, por extensão dialogou com a Idade Média italiana. 

Entretanto, confidencio que ultimamente essa metáfora não mais encontra eco em meu peito. Pesa-me imaginar sempre a vida como algo que andamos em passos pesados por uma estrada empoeirada (ou poenta como escreveu Álvares de Azevedo). Figuram-me na cabeça imagens de botas, malas e tralhas diversas a carregar sobre as costas, fardos renitentes a tornar a viagem mais pesarosa. 

Meus olhos, muitas vezes entristecidos, têm circunvagado e procurado ressignificar o cotidiano. Talvez, uma forma de defesa (ou escape) diante de dura e contrita realidade. Assim, notei-me um dia observando as embarcações a deslizar sobre as águas do rio Sergipe. Naquele instante, não desejei ser o barqueiro a me fazer um só com o seu batel. Desejei ser eu mesmo uma pequena embarcação, uma canoa ou uma jangada. Desejei ser sem digressões filosóficas e nem angústias várias. Desejei me tornar feixe a navegar no espelho das águas sem as inquietações, sem as lamúrias, sem os medos pelo vindouro e sem ter na alma os suplícios por incompreender o mundo. Desejei ser apenas o símbolo do pão de uma família de ribeirinhos e, nessa simplicidade, deixar-me seguir na correnteza tristonha. Desejei e ainda almejo ser jangada qualquer para, sem receios, um dia desfazer-me na beira de alguma praia ou desaparecer infindo na desembocadura da foz.