Cada vez mais acredito que Amor se escreve com letras pequeninas que cabem nas igualmente pequenas parcelas do cotidiano. Delicadezas sutis que deixam o ar do dia impregnado de um tipo de beleza que poderíamos chamar de caseira, mas cujo poder de infiltração na vida quase não se pode medir, tão cheia de verdade ela é.

Roupas sujas meticulosamente dobradas e deixadas com cuidado em um cantinho do banheiro. Mal havíamos começado nossa vida a dois, quando eu vi aquele detalhe no chão do banheiro. E sorri. Por dentro e por fora. Explico.

Não gosto de ter cesto de roupas sujas no banheiro. Prefiro acomodar pouquinhas peças num cantinho e no fim do dia descê-las para o cesto que fica ao lado da máquina de lavar no térreo da casa. Assim, quando vou colocar roupas para lavar, está tudo ali.

Quando Moreno veio morar comigo, em outubro, logo incorporou meus hábitos, sem necessidade de nenhuma explicação. Sensível e sabido como é, ele percebeu todas as minhas formas de organizar o cotidiano e passou a ser meu parceiro em tudo. Daí ter logo percebido a questão da roupa suja. Sem falar nada, passou a deixar sua roupa para lavar dobradinha ao lado de um cestinho que temos no banheiro.

Quando eu vi aquelas poucas roupas meticulosamente dobradas, sorri. Pensei: “Esse homem não existe mesmo! Como ele pode ser tão cuidadoso assim?”. Fiquei até com vergonha das minhas, que eu deixava no mesmo lugar, displicentemente colocadas. Aí perguntei: “Amor, por que você dobra suas roupas sujas todas juntinhas, e as deixa assim tão arrumadinhas?”. “Ah, não fica mais organizadinho assim? É mais fácil para pegar e levar lá para baixo!”. “É mais fácil sim, amor. Difícil é alguém ser como você!”.

Hoje, quando eu vejo a roupinha dele ali dobradinha, renovo a certeza de ter encontrado um homem que sabe fazer uma mulher feliz, porque sabe imprimir ao cotidiano uma parceria viva, feita de pequenos grandíssimos detalhes. Aliás, agora eu mesma “ajeito” melhor minhas roupas sujas. Quanto a levar os “pacotes” para baixo, a “missão” também é dividida. Volta e meia, me vem a voz dele: “Galega, estou levando a roupa para colocar no cesto!”.

Que todos os homens um dia possam perceber que, para nós, mulheres, vítimas que somos desta história machista do mundo, não há nada mais revigorante para o Amor que perceber que o companheiro que escolhemos vive a casa como parte dele também (porque, de fato, é!) e assume, sem alarde, sem parecer estar “nos fazendo um favor”, as pequenas responsabilidades domésticas de cada dia.

Obrigada, meu amor, pelo delicado “pacote” de roupa suja dobradinha de cada dia. Nele, a metonímia e a metáfora da grande pessoa que você é!