“O sofrimento contínuo
Na lágrima cristalizada
que deserta meus olhos hoje
deita fios longos
tece o caminho
desnecessário da saudade
o quanto podem
a dor e o silêncio
cravados em mim como espinhos”.
(Núbia Marques. Trecho de “Inútil”. Verdeoutono/1982)

Com os versos de Núbia Marques, relembro a caminhada do professor e meticuloso pesquisador Luiz Fernando Ribeiro Soutelo (1949-2022).
Travei contato pessoal com essa figura de nosso meio intelectual, quando passei a frequentar mais amiúde a Casa de Sergipe, o nosso Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, espaço que era, como líamos em seus olhos, uma extensão de sua casa.
Ali, pude testemunhar, inúmeras vezes, sua ampla cultura, sua prodigiosa memória e generosidade no ensino. Não regateava em partilhar o que sabia, fosse com o mais iniciante pesquisador ou com o mais titulado estudioso. Sua palavra de acolhida era a sua forma de expressar afeto por aqueles que pesquisavam o objeto de sua paixão: Sergipe.
Não há dúvidas, entretanto, que todo esse saber nem sempre foi respaldado. Figuras várias se valeram de seus ensinamentos, anotaram suas palavras proferidas com a baliza de primoroso pesquisador que era e não lhe atribuíram créditos, nem ao menos um agradecimento ou nota de rodapé. A esses farfalhões plagiadores, desejo o pagamento de que são merecedores.
Em linha oposta, almejo a Ribeiro Soutelo a permanência. Todavia, a vida já nos ensinou que desejos não se concretizam sem ação. Eis o motivo que me impele a propor que corrijamos um erro do mestre. “Palavras voam, escrita permanece” (“verba volant scripta manent), provérbio latino, é talvez, a ideia menos ouvida por Soutelo. Todos os que o conheceram sabem que muito ficou a publicar. Assim, a melhor das homenagens que lhe prestaríamos seria o consórcio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), Conselho Estadual de Cultura (CEC), Fundação de Cultura Aperipê (FUNCAP) e instituições congêneres para a organização e publicação de seus textos. Desse modo, não apenas seu nome e sua contribuição permanecerão, mas também a bibliografia sobre Sergipe será enriquecida de forma ímpar com as produções de um dos seus mais cuidadosos pesquisadores.
Já sugeri à minha presidente de IHGSE, a professora Aglaé d’Ávila Fontes, que levasse à diretoria a proposta que nosso salão de pesquisas receba o nome de Prof. Luiz Fernando Ribeiro Soutelo com placa e fotografia a serem fixadas no mesmo lugar, onde ele acomodava sua mesa. Mas isso é bem pouco diante do que podemos propiciar à sua memória e ao estado de Sergipe. 
Que as palavras de Soutelo sejam sua força e perenidade entre nós. Mais uma vez, valho-me da Poesia nos versos de Iara Vieira:

“O segredo de minha força
Está nas asas deste pássaro
Prestes a decolar
Esperando meu consentimento”.
(Iara Vieira. “Poética”. Esses tempos ad/versos. 1984)

Soutelo, presente!