(12 anos de saudade)

[…] Neste momento de grande júbilo para mim, também com muita honra sou diplomado na cadeira de nº 14, patroneada pela educadora Maria Iracema Santos, primeira gloriense a patronear uma cadeira do referido Sodalício.

Como tive o privilégio de escolher quem seria o patrono da cadeira que iria ocupar, cumpre-me agora descrever, por meio da biografia dessa ilustre cidadã gloriense, as motivações que me levaram a tal escolha.

A Profª. Iracema nasceu no dia 14 de abril de 1954, em Nossa Senhora da Glória. Filha primogênita do comerciante Manoel dos Santos (Manoel Nicola) e da Prof.ª.  Iraci Oliveira.

Iniciou seus estudos formais no Educandário São Francisco de Assis, dirigido na época pelo Sr. Manuel Cardoso dos Reis. Passou também pelo Colégio Glória e pelo Colégio Estadual Cícero Bezerra, onde terminou o 1º grau. 

Aos 16 anos, por meio de concurso público, ingressou na Caixa Econômica Federal e, em seguida, atuou em uma empresa privada, a EMBASA, na cidade de Vitória da Conquista (BA), onde concluiu o 2º grau no Centro integrado de Educação Navarro e Brito – CIENB. Ainda em terras baianas, cursou Patologia Clínica no Instituto Conquista de Educação e Preparo – ICEP e prestou vestibular para Língua Portuguesa na Universidade Estadual do Sudoeste Baiano – UESB, sendo aprovada para, futuramente, cumprir a missão de que mais gostava: lecionar. 

Foto: Divulgação

Anos depois, retorna definitivamente para a sua terra natal e se casa com José dos Santos, com quem teve dois filhos: Flávio e Flávia.

Maria Iracema dos Santos dedicou mais da metade de sua vida à educação. Lecionou no Colégio 28 de Janeiro e na Universidade Tiradentes (UNIT), em Monte Alegre de Sergipe. Em Nossa Senhora da Glória, trabalhou no Colégio Cantinho da Sabedoria, no Colégio Nossa Senhora de Lourdes e no Colégio Educar. Implantou o Polo da Universidade Tiradentes na Capital do Sertão, atuando como a primeira Gestora.

Como nos afirma Augusto Cury “Um excelente educador não é um ser humano perfeito, mas alguém que tem a serenidade para se esvaziar e sensibilidade para aprender”.

Assim era a Prof.ª Iracema, serena e sensível, professora por vocação que nutria uma relação maternal com os educandos sem perder o princípio da autoridade não autoritária. 

Iluminada por Paulo Freire na assertiva de que “Educar-se é impregnar de sentido cada momento da vida, cada ato cotidiano”, ela transformava sua casa em uma extensão da escola, recebia constantemente seus alunos, que a procuravam em busca de conhecimento e aconselhamentos.

“Feliz daquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”, Cora Coralina, autora muito citada pela Prof.ª Iracema.

Posso afirmar, com toda propriedade, que ela foi, é e sempre será modelo a ser seguido, pois não media esforços para alcançar seus objetivos como educadora, era incansável na missão de transformar, de auxiliar no crescimento de seus educandos. Era pesquisadora, compreendia diversas áreas do conhecimento, podia transitar por vários temas transversais com muita propriedade.

Tive o prazer de tê-la como orientadora de Estágio Supervisionado e a oportunidade de poder atuar ao lado dela na ação de educar.

Em 20 de julho de 2009, uma segunda-feira, quando se comemorava o Dia do Amigo, partia para o plano espiritual a nossa educadora.

Recorro mais uma vez a Cora Coralina “Fechei os olhos e pedi um favor ao vento: Leve tudo que for desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas… Daqui para frente levo apenas o que couber no bolso e no coração.” E continuo “O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim terás o que colher.”

Aqui trago o maior legado da educadora Iracema: A CAMINHADA. Ela traçava metas, envolvia as pessoas, articulava as ações, instigava a curiosidade, e, sobretudo, caminhava junto.

Não poderia deixar de mencionar Içami Tiba também e à reflexão das portas da vida: Se você abre uma porta, você pode ou não entrar em uma nova sala. Você pode não entrar e ficar observando a vida. Mas se você vence a dúvida, o temor, e entra, dá um grande passo: nesta sala vive-se! 

Eis o grande desafio de educar: abria as portas. Convidar o educando a entrar na sala do conhecimento e vencer o obstáculo da dúvida, vencer a ignorância, agigantar os passos em busca de uma vida plena, com dignidade e crescimento pessoal. Iracema nos conduzia a essas portas, levando-nos a aproveitar as oportunidades que a vida nos oferecia.

Içami Tiba continua divagando em relação às portas: A vida é generosa, a cada sala que se vive, descobrem-se tantas outras portas. E a vida enriquece quem se arrisca a abrir novas portas. Ela privilegia quem descobre seus segredos e generosamente oferece afortunadas portas. 

Iracema abriu todas as portas para que nós, sementes e semeadores, pudéssemos ir ao campo, semear, colher, abrir novas portas, olhar o horizonte e continuar a incansável missão de educar e hoje nós arriscamos a abrir novas portas porque fomos encorajados por essa mulher que não conhecia o verbo cansar-se quando se referia em transmitir conhecimentos.

“Se temos de esperar, que seja para colher a semente boa que lançamos hoje no solo da vida. Se for para semear, então que seja para produzir milhões de sorrisos, de solidariedade e amizade”, Cora Coralina.

[…]

E ao encerrar, gostaria de submeter à reflexão de todos, principalmente os educadores, o sábio e profético pensamento do escritor alemão Albert Schweitzer: “Todas as sementes de bondade que um homem espalha pelo mundo brotarão um dia nos corações e pensamentos de outros homens”. 

Obrigado!

*Trecho do Discurso de posse na cadeira nº 14 de membros efetivos da Academia Gloriense de Letras, proferido pelo imortal Lucas Lamonier Silva Santos, em 10 de outubro de 2015.