Uma versão mais “moderna” de cigarros com gosto disfarçado com aromas e sabores tem despertado a curiosidade de jovens e se tornado comum em reuniões e festas. Apesar de passarem a ideia de serem inofensivos, a comercialização de cigarros eletrônicos no Brasil é proibida e seu uso é tão prejudicial quanto o cigarro clássico. 

Alguns artistas como o cantor Zé Neto, da dupla com Cristiano e, mais recentemente a cantora de forró Solange Almeida, revelaram fazer o uso do cigarro eletrônico, também conhecido como vape, e sofrerem pelos malefícios das substâncias contidas no dispositivo. Solange, por exemplo, relatou que teve problemas na voz, crises de pânico e depressão. 

O médico cardiologista Augusto Césare, coordenador curso de Medicina da Faculdade Ages de Irecê, explica que o cigarro eletrônico possui um sistema de vaporização com reservatório, onde um líquido contendo uma série de substâncias, que incluem a nicotina, são aquecidas e inaladas através de um bocal, dando uma sensação muito similar ao uso do cigarro comum. 

“Seu uso inicial teve como princípio a ideia de descontinuar o tabagismo tradicional ao substituir por uma opção menos lesiva. As análises primordiais sugeriam que o poder lesivo geral dos cigarros eletrônicos seria de 5% em relação aos cigarros tradicionais. No entanto, análises posteriores não confirmaram essa expectativa”, alertou. 

Césare pontua que as evidências mostram pouco sobre os poderes lesivos do cigarro eletrônico e isso pode ser explicado por três fatores importantes: as doenças relacionadas ao tabagismo demandam de longo tempo de exposição e ainda não existem estudos de longo prazo para determinar precisamente esse impacto; uma parte considerável da população usuária do cigarro eletrônico é de ex-fumantes tradicionais, o que pode gerar uma superposição de efeitos e um viés de observação. E, por último, existe uma dificuldade em obter uma relação precisa de causa e efeito, sendo necessário estudos longos e trabalhosos para inferir essa relação. 

Os cigarros eletrônicos fazem mal à saúde? 

De acordo com o cardiologista, a resposta é sim”. Ele explica que os cigarros eletrônicos fazem mal à saúde porque reproduzem reações inflamatórias semelhantes ao tabagismo tradicional. “Só não temos ainda uma noção exata do seu potencial lesivo, nem podemos inferir ainda que sejam inferiores ou superiores ao tabagismo tradicional. Apesar dos estudos atuais apontarem em direção a um potencial lesivo menor, o cigarro eletrônico não pode ser considerado inócuo, nem seguro para o uso indiscriminado”.  

Além disso, os riscos à saúde são basicamente os mesmos relacionados ao tabagismo tradicional, pois estamos falando de substâncias muito semelhantes. “Portanto, os cigarros eletrônicos estão relacionados a processos inflamatórios locais, incluindo alterações na orofaringe e no aparelho respiratório, além de processos inflamatórios sistêmicos, como aumento de biomarcadores para vários tipos de cânceres e de doenças vasculares, especialmente a doença coronariana e a cerebral”, alertou.  

O médico pontua que ainda não é possível estimar a magnitude desses riscos de forma apropriada, pois um estudo comparativo entre tabagismo tradicional e uso de cigarro eletrônico dificilmente terá espaço para ser efetuado, pois implicaria em questões éticas e metodológicas importantes. “Cabe ressaltar que a falta de evidências no momento da extensão desses riscos não significa ausência de riscos evidentes!”, disse.   

Alerta 

Augusto Césare coloca ainda que o cigarro eletrônico surgiu inicialmente como um grande apelo para a alternativa adicional de cessação do tabagismo, porém os estudos subsequentes não foram capazes de mostrar esse efeito, uma vez que não houve resultado satisfatório ao longo de análises que tiveram até 52 semanas de seguimento. 

“O cigarro eletrônico trouxe um apelo midiático interessante por se tratar de um recurso aparentemente mais tecnológico e politicamente correto, e esse apelo é muito contundente para a experimentação em uma população jovem. O que está se observando é que a iniciação ao tabagismo, que vinha decaindo progressivamente, pode voltar a ganhar um impulso com o cigarro eletrônico, dessa vez com um certo glamour adicional de tecnologia e status. 

Enquanto isso, os estudos de coorte seguem mostrando que, tanto para a experimentação como para o tabagismo atual, o uso do cigarro eletrônico esteve associado a um risco respectivo de 3,4 e 3,6 vezes mais, deixando claro que a disseminação do uso do cigarro eletrônico resultará em uma nova população de adultos tabagistas.