Christina Ramalho

Tomemos um mosaico qualquer como metáfora. Metáfora de quê? Primeiramente de nós mesmos/as como indivíduos. Não há como sermos diferentes de um extenso, multicor e multiforme mosaico. São tantos o fragmentos de que somos feitos… São igualmente tantas as cores que temperam nossa existência e consagram as distintas imagens que as pessoas têm de nós… Na maturidade, que estrutura complexa podemos apresentar! Um conjunto alegre ou triste, uma tonalidade viva ou pastel, desenhos de flores ou de espinhos, sensação estética de harmonia ou de desordem. Apolo, Dionísio, anjos e demônios. Certamente sequer nós mesmos/as sabemos o valor do conjunto da obra. E, por isso, na maioria das vezes, não conseguimos fazer pequenos ajustes que bastariam para que chegássemos a uma beleza maior. E assim vamos pela vida: mosaicos mutantes, caleidoscópicos, espargindo nossos fragmentos pelo tempo e pelo espaço.


Entretanto, também do amor um mosaico pode ser metáfora. Não qualquer amor. Mas aquele que se desenha com intuição e trabalho semelhantes aos do/a artista. Amor que se quer obra de arte. Amor sensível. Bom. Bem. Bem bom! Esse mosaico é mais complexo, porque reúne fragmentos de duas pessoas. Não é mais um mosaico independente, cujos efeitos plásticos belos ou feios se restringem a um indivíduo. Os efeitos agora são fruto da composição da mais simples e mais complexa força coletiva: a equipe de dois. Dois seres em estado de amor e arte. A questão é: como compor um mosaico cuja beleza possa transcender espaço, tempo e, principalmente, a mediocridade que cerca, permeia e destrói o que poderia ser belo?


Não há resposta. Há os fragmentos, a eleição dos que serão compartilhados (que difícil pode ser doar os próprios fragmentos), a argamassa com que se unem esses fragmentos, a sensibilidade para a composição e a energia para o trabalho. Inicialmente, os fragmentos ainda estão soltos no mar da argamassa da segurança desejada. Não se vê bem o desenho que sairá dali. Pouco a pouco, porém, ficará cada vez mais evidente se o conjunto da obra segue em direção ao sucesso (ser arte) ou à falência (não ser nada, sequer mosaico).


O amor-mosaico pode, sim, ser uma obra de arte. Basta que sejamos artistas ao amar. Basta que façamos o exercício simples (é simples realmente. O problema é a dificuldade que temos em aceitar a beleza da simplicidade…) de resgatarmos os melhores fragmentos que compõem nosso ser para doá-lo à composição amorosa. Porque, ao fazermos isso, não estamos apenas nos doando ao/à outro/a. Estamos, talvez até mais, doando-nos a nós mesmos/as, porque optamos por fazer de nossa vida uma obra de arte.
E buscar os melhores fragmentos não quer dizer trazer ao ateliê apenas os fragmentos de cor e forma divinas. Ao contrário, muitas vezes será aquele fragmentozinho escuro e disforme que fará a diferença e imprimirá verdade ao que se construiu.


Talvez, e digo talvez porque pouco sei a respeito desses mistérios, nossa maior e mais linda vocação na vida seja a arte. Chego a pensar que se fôssemos todos/as artistas, cientes do esforço necessário para nos cercarmos de arte, as histórias de amor seriam muito diferentes. A vida humana seria muito diferente. O planeta seria outro. E um mosaico seria uma linda metáfora de Deus. Ser artista. Dominar a arte do mosaico. Saber amar. Não são fórmulas, porque cada resultado terá feição diferente. Mas seguramente são formas. Formas delicadas, sensíveis e divinas de ser, para o outro e para si mesmo/a, um mosaico maravilhoso aos olhos da estética da felicidade.