O sertão sergipano é conhecido por suas belezas naturais, seus encantos históricos e culturais, suas riquezas gastronômicas e tem chamado atenção na literatura com o surgimento dos encontros de escritores e leitores e com uma vasta publicação literária. É importante destacar nesse cenário a produção bibliográfica das mulheres sertanejas, e aqui, ressaltamos as mulheres da capital do sertão, do leite e do conhecimento.

Nossa Senhora da Glória respira poesia, cavalga em prosas e se enraíza nas pesquisas históricas e bibliográficas que resguardam seu legado cultural. E a figura feminina se encontra em cada linha produzida. Se historicamente os homens detinham a posse da caneta e grafavam seus nomes nas estantes das bibliotecas, hoje, as mulheres se debruçam nas escrivaninhas, e deixam os dedos passearem pelo teclado do computador e digitam uma nova narrativa. 

Se o ar puro do interior é tão buscado por tantos que vivem fatigados da correria das grandes cidades, os versos femininos que exalam docilidade, fé, amor, são balsamos para a calmaria de espírito. A escritora Leunira Batista, em Asas Poéticas, nos provoca de maneira sinestésica: “Ao raiar do sol/ os lírios do campo sonham!”. A autora de O Espelho da Felicidade, em sua prosa, deixa claro que “A Felicidade deixa lampejos nos sonhos inebriados, conscientes e inconscientes”. A jovem Martha Regina Santana Sales, em seu e-book Flores do Verão de Março, também usa as sensações para gritar “A cada conquista e declínio ela floresce. Percorre grande roçado de flores do verão, confia na sua competência, se solta no mundo em busca das íntimas aspirações.”

O grito poético no sertão é também A menina que respirava versos, da jovem poetisa Glaucia Pamela, que não se priva de cantar a dor “Rasguei minhas vestes de dor/ Dilacerei a ferida/ Pintei minha alma/ De cor de vida”. Um grito que se torna mais ensurdecedor na Poesia em Carne Viva da psicóloga Leila Teles, “Quando o ócio transforma-se em inquietude/ E a dor pede forma/ É necessário olhar o obvio”.

A fé gritou em terras glorienses em Uma vida nas mãos de Deus, da empresaria Janea Maria Mota Santos Dantas, que relada a Providencia Divina em sua vida, e que é necessário ouvir Deus falando ao coração. A escritora Ana Cristina de Sousa, em Relatos de um caminho – Uma metáfora de vida como viagem, nos permite ouvir o grito silencioso da experiência de fé e vida do Caminho de Santiago. São vivências que transformam e ajudam a transformar.

A história não se emudece, ela também grita no sertão, nas pesquisas da historiadora Cacia Valeria de Rezende, que brinda o sertão com três obras importantes para salvaguardar nossas memórias: Educação no Sertão: memórias e experiências das professoras no alto sertão sergipano (1950-1970); Luzes do Sertão: a contribuição da Escola Estadual Cícero Bezerra para a sociedade gloriense (1963-1990) e Um beijo da modernidade: namoro e casamento no sertão urbano – N. Sra. da Glória (1940-2000).

A jornalista Maria Verônica Santana e Sá faz o legado de uma professora sertaneja/gloriense (sua mãe) ser perpetuado com a obra Joana – Uma mulher agraciada por Deus, que além de uma linda homenagem a quem contribuiu de maneira significativa na educação, é também recortes de uma época, de experiências vividas no chão da escola e na lida familiar.

E a matemática também faz seu barulho na biblioteca, pois a professora Nadir Santos Freitas decidiu compartilhar com seus colegas suas experiências em levar os conceitos matemáticos por meio de jogos, e lançou JOGOS MA7EM4T1COS – no contexto da sala de aula. 

E falando em sala de aula, nunca foi tão difícil a partilha de conhecimento entre alunos e professores. O distanciamento social provocou múltiplos problemas emocionais, principalmente nas crianças. E o grito na estante da psicologia veio da obra Depressão infantil – discurso dos profissionais da psiquiatria, da psicóloga Tatiane Vieira, com um olhar sensível e atento aos fenômenos do comportamento humano.

O cordel também grita o seu espaço com a jovem cordelista Claudia Emylly Silva Barreto e seus folhetos Lampião, Herói ou vilão? e Jeitinho Brasileiro, o apelido da Corrupção. 

São inúmeras as vozes literárias que ecoam de maneira coletiva e que ganham autofalantes nas praças, auditórios, salas de aula e lives. A voz de Gileide Barbosa, de Verônica Salles, de Iasmin Ferreira, de Luciola Santos, de Maria do Carmo, de Raquel Aline, de Janete Oliveira, de Joana Melo, de Fernanda Sousa, de Isis da Penha, de Daynara Côrtes, de Jully Gabriela e tantas mulheres que fazem da escrita sua luta por direitos e espaços.

 A voz silenciosa ganha força e som quando encontra outras vozes que escolhem o sertão como espaço de grito e vida, de força e transformação, de esperança e construção. Como a voz da escritora Christina Ramalho, Membro Honorário da Academia Gloriense de Letras, que na obra Ponteiros de papel reverbera: “sentir na pele/ a sina do cacto/ sempre aberto / ao abraço / e no entanto/ simultaneamente /anti-abraço/ no espinho/ anti-ninho/ que repele /pra não machucar/ mas ser cacto/ é também ser flor/ irrompendo/ gloriosa/ entre os espinhoso / toque ferem/ as o olhar / se alimenta/ do abraço valente/ que envolve a gente/ na metáfora de sua cor.”

Essas vozes são som, melodia, resistência. A literatura é o palco e nós o público, atento a cada palavra/ação.