Estamos no século vinte e um, mas ainda é muito comum encontrar mulheres submetidas a homens nas pequenas cidades do nordeste brasileiro, principalmente nas regiões com menos acesso a serviços públicos. O patriarcado nada mais é do que essa estrutura social que define a submissão como a postura que a mulher deve ter em sua relação com o homem, ou seja, ele dita as regras de como a mulher deve se comportar. Para muitas mulheres de luta, essa submissão imposta é uma ofensa por agredir violentamente os direitos das mulheres. O patriarcado é um bicho de sete cabeças. Nenhum conceito consegue explicar completamente por que ele ainda existe, mas ele está vivo e aparece todos os dias nas estatísticas de feminicídios, distribuição desigual de propriedades, dificuldades de acesso de mulheres às profissões, etc.

Andando pelas pequenas cidades do nordeste brasileiro, pude perceber que o patriarcado ainda é muito comum até mesmo nas instituições públicas. Numa família patriarcal, se uma moça quer namorar um rapaz é preciso que o pai o conheça e autorize o namoro. Somente o pai pode autorizar, e apenas depois de o jovem passar pelo crivo paterno é que o namoro poderá ou não seguir adiante. Também ninguém janta enquanto o homem da casa não se sentar à mesa. Os homens é que dirigem o velho automóvel para a mulher. O homem não vai à cozinha preparar refeições e não sabe sequer fazer um prato de comida, pois é a mulher quem tem o dever de servir.

Pelo exposto acima, dá para perceber o quanto essa mulher nordestina ainda anda sem voz. Ela não conhece os seus direitos, submete-se às ordens e às opressões machistas dos seus companheiros. Sim, algumas se rebelam. Algumas não suportam tanta opressão, mas são poucas. E as que se rebelam, em geral fogem para a cidade grande, onde a coisa também não é tão fácil. Essas mulheres nunca saberão o que é ter prazer numa relação sexual, pois são tratadas como parideiras de filhos. Elas não têm o direito de escolher o número de filhos que querem ter, não têm direito a gemerem na cama e muito menos a falarem em orgasmo. Não! Os seus direitos são podados desde a infância quando o irmão mais velho é o que as “pastora” na ida e volta da escola.

Muitas dessas mulheres das pequenas cidades do nordeste brasileiro, por incrível que possa parecer, não podem ir à escola para não aprenderem a ler e começar “cedo” a se “enxerir” aos jovens rapazes por poderem marcar encontros às escondidas através de bilhetes. Como também não devem ser alfabetizadas para não escreverem cartas de “sem-vergonhice”. Um direito que todo ser humano deve ter é negado à mulher pelos homens da família, mais precisamente pais violentos que castigam as suas filhas quando essas desobedecem às suas ordens.

Não é difícil para essas mulheres viverem assim, pois desde cedo são acostumadas a obedecerem aos homens da família. Elas sabem que devem obediência ao pai, avô ou irmão mais velho. E nada dizem. Nada reclamam. Apenas vivem como se tudo estivesse certo para elas. Mas, não está. Para acadêmicas e mulheres de luta, o patriarcado é um mal às mulheres. Ele oprime, abusa, violenta os direitos fundamentais que elas deviam ter. Ele nega o que de melhor a mulher pode viver numa sociedade já tão machista e mesquinha para com ela.

O problema todo é que essas mulheres das pequenas cidades do nordeste brasileiro não têm quem lute por elas. São mulheres simples, analfabetas, donas de casa e mães de muitos filhos. Se ousarem se rebelar contra os seus maridos ficarão sem casa e comida. Perderão tudo o que construíram ao longo da vida. Serão renegadas pela família. Uma moça que vai à casa do namorado fica falada, assim como a moça que perde a virgindade sem se casar. Quando o povo da localidade sabe disso, a pobre moça é hostilizada, deixada de lado e os jovens rapazes não querem mais namorar com ela. Moça para casar tem que ser virgem. A mesma opressão ocorre quando uma moça solteira engravida. A violência é tamanha que, muitas vezes, ela tem que sair da cidade para ter o seu filho bem distante e abandoná-lo por lá mesmo. Parece inacreditável, mas tudo isso acontece em pleno século vinte e um!

A moça de família tem que ir à igreja aos domingos, temer ao Nosso Senhor Jesus Cristo e não fazer peraltices quando estiver menstruada, sim, porque, para muitas mães, quando a filha menstrua está doente. Esses são costumes que colocam a mulher numa posição inferior ao homem. Se alguma mulher moderna chega à cidade trazendo novidades é logo malvista e falada. “Negadora da moral e dos bons costumes”, a sociedade teme a sua influência perante as jovens mocinhas da cidade, por isso essas saem sempre acompanhadas do irmão mais velho para que não deem atenção a pessoas com ideias revolucionárias.

Os homens costumam comprar os tecidos dos vestidos das suas mulheres e elas muitas vezes não podem cortar os seus cabelos curtinhos para não ficarem “parecendo com um macho”. São coisas assim que as feministas combatem. A mulher tem o direito de vestir-se do jeito que quiser, de ter o número de filhos que desejar e amar quem o seu coração se interessa. Em alguns lares os pais ainda escolhem os maridos das filhas, que, muitas vezes, é o primo mais próximo ou o filho do compadre. Quando uma mulher não aceita esse tipo de relação fere os laços familiares, envergonhando a família, “sujando” o nome da família.

Está enraizado nas famílias das pequenas cidades do nordeste brasileiro esse patriarcado. Difícil desfazê-lo. Serão anos de luta das mulheres feministas. Precisaremos de muita coragem e sabedoria para enfrentarmos esses costumes que oprimem a mulher desde a sua pequena infância quando é submetida a aprender a cozinhar e costurar mesmo sem gostar do que faz. Sabemos que não é fácil a luta, mas podemos começá-la plantando sementinhas aqui e acolá. Despertando nas mulheres a quebra desses costumes mais opressivos e aos poucos derrubando tabus.

Juntas somos mais fortes. O patriarcado não tem mais vez em nenhuma sociedade. A mulher vencerá os seus medos e a opressão do machismo interiorano. Em nossos dias, a mulher luta para ser a guardiã da sua própria vida e nela poder mandar como quiser. É assim, deve ser assim. Mulheres com direitos respeitados, seja qual for o lugar em que vivem.