Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Álvaro de Campos

Sonho que sou Alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

Florbela Espanca

Atrevo-me a comparar dois poetas portugueses maravilhosos e que os leio quase diariamente. Não tenho livros de cabeceira. Tenho livros nas minhas mãos e na mochila que levo para onde vou. Se você me encontrar na rua pode pedir para ler o livro que carrego. Terei sempre um poeta português junto comigo, porque amo aqueles que aqui chegaram e povoaram esse país fazendo dele um lugar maravilhoso para se viver. A poesia portuguesa é para mim a mais linda do mundo, começando por Fernando Pessoa e chegando em Ernesto Manuel de Melo e Castro. Eu também não posso esquecer das mulheres portuguesas que brilham na arte da poesia e aqui deixo o meu abraço afetuoso à poesia de Sophia de Mello Bryner Andresen e a Luiza Neto Jorge cada uma com a sua unicidade e eu lírico que se diferenciam na arte de poetizar, mas se aproximam quando tecem versos que nos encantam a alma como se fossem orvalhos das manhãs.

Falar da poesia do engenheiro naval Álvaro de Campos é entrar no mundo da heteronomia de Fernando Pessoa no que há de mais profundo e filosófico sobre a sua poesia que se larga no chão feito enamorado apaixonado que se despede do seu eterno amor, seja naquele que pensa na vida como um balanço onde o estar aqui nem sempre é presença, mas essência que veste a psiquê de uma aprendizagem metafísica que nunca sabe ser-se ou quem ser-se, se é que somos algo antes de existir para a realidade do mundo.

No heterônimo de Álvaro de Campos, Fernando Pessoa consegue falar de uma psiquê que abre as portas da sensibilidade poética para falar de um nada que se aproxima de Parmênides quando ele se refere ao ser e ao não-ser que apesar de estarem próximos não são iguais. O ser pode ser pensado e o não-ser é aquilo que não pode ser pensado. Se o não-ser não pode ser pensado e se de certa forma ele existe no universo deve se esconder atrás do daimon socrático. Eis uma questão que suspende o juízo para ser refletida. Em todo caso o poeta Álvaro de Campos traz esse não-ser quando fala em seus versos que nunca será nada. Existir também é ser um nada, penso. Se a física nos diz que 74% do universo é composto pelo vazio e que 22% é composto de matéria escura, essa matéria pode ser vista como coisas que estão preenchidas por algo, o nada não deixaria de existir de alguma forma.

E por que o poeta Álvaro de Campos não pode querer ser nada? Talvez porque ele já seja alguma coisa mesmo sentindo-se vazio na sua essência há uma metafísica que alerta que o não poder é o poder da sabedoria divina onde os deuses do Olimpo têm poderes sobrenaturais capazes de mesmo não quererem ser nada serem o tudo para aqueles que acreditam neles. Não poder querer ser nada é desrespeitar a essência do ser e essa desobediência é livre para o poeta que abre o seu terceiro verso dizendo que apesar de não querer ser nada tem todos os sonhos do mundo e quem tem imagens tem sabedorias à parte necessárias ao bom viver.

O nada não existe. Está é uma concepção do filósofo Bergson contemporaneamente modernizada por Sartre que nos diz que apesar do nada não existir pode ser concebido por operações da mente e de que o nada é uma entidade de existência real, ou seja, resumindo para simplificar nossas palavras melhor, o nada existe enquanto ser. E está presente na natureza e na verdade enquanto ser uno e indivisível. Por isso quando o poeta Álvaro de Campos nos diz que não é nada, na verdade, ele quer nos dizer que é mais do que tudo, ele é um ser completo que busca a essência das coisas e se percebe desassossegado ao não encontrá-las, logo é que no verso seguinte ele nos diz que tem em si todos os sonhos do mundo e quem não os teria preocupado em encontrar essa origem das coisas ao nosso redor? Vale a reflexão.

E o que dizer de ser Alguém para Florbela Espanca? Talvez o ser de Parmênides que explica o que é pensado, a imagem que criamos no pensar, o que é uno, o que se apresenta à realidade. Se lembrarmos do filósofo Descartes o ser é aquilo que se pensa, logo existe. E por existir Florbela passa a sofrer todas as dores geradas pelas coisas presentes na realidade, uma angústia e melancolia produzida pelas musas da poesia.

O ser é tudo aquilo que constitui a realidade e pode ser formado como imagem no nosso pensamento. Para Parmênides o ser é todo, ou seja, inteiro, ele não se separa. Sendo a poeta Florbela Espanca um ser, melhor dizendo, um Alguém como ela mesma diz em seus versos pode ter um saber vasto e profundo, saber este que se apresenta na realidade dos mundos das ideias do filósofo Platão. Todo saber é vasto e profundo quando não está preso, quando pode voar, quando é livre para navegar em mares nunca antes navegados.

A poesia de Florbela Espanca é doída, mas dói também ser um Alguém que não pode ser separado e que não pode ser dividido. Todo ser completo percebe-se apesar da sua completude ainda por indefinido tanto no existir quanto na arte da sabedoria. Assim é que o filósofo Sócrates dizia “Só sei que nada sei”. E por mais que a poeta Florbela Espanca diga ter um saber vasto e profundo para justificar ser alguém neste mundo, ela sabe que precisa saber mais para tornar-se infinita e por isso nos diz na terra anda curvada, como se essa terra soubesse mais do que ela. Todos sabemos que da terra surgiu o homem segundo o cristianismo e que da terra vêm os alimentos que necessitamos para sobrevivermos, logo a terra passa a ser chamada por muitos de mãe terra. Essa mãe que tudo nos dar e nos proporciona.

O nada do poeta Álvaro de Campos ao Alguém de Florbela Espanca se aproximam e são semelhantes. A semelhança é concebida quando lembramos de Sartre na concepção do ser nada. Apesar desse ser nada não querer existir ele faz parte do nosso pensamento, então Álvaro de Campos também é uma Alguém assim como Florbela Espanca. O estar aqui existe e não pode ser o nada. Ter muitos sonhos dentro de si é a mesma coisa de ter um conhecimento vasto e profundo. Os dois poetas conversam em versos semelhantes que se diferenciam apenas na forma de utilizar as palavras para falar desse conhecer-se e conhecimento das coisas que nos rodeiam e tanto precisamos saber como são constituídas para que cada vez mais possamos poetizá-las.

Se há uma melancolia na poeta Florbela Espanca também podemos encontrá-la no poeta Álvaro de Campos. E  todos são divinamente inspirados pelas musas como nos exemplifica o filósofo Platão no seu diálogo Íon. Sabemos hoje que a poesia não é feita somente de inspiração divina, mas de uma necessidade de conhecimento técnico sobre as coisas e talvez por isso Álvaro de Campos tenha tantos sonhos que podem tornar-se reais a partir do conhecimento que for adquirindo ao longo dos seus anos assim como a poeta Florbela Espanca mesmo com um saber vasto e profundo anda na terra curvada, sabendo que precisa de mais conhecimento técnico.

A perfeição do poetar está naquilo que aprendemos ao longo dos anos. Seja o conhecimento científico ou o do senso comum. Necessitamos dos dois para poetizarmos a vida de uma forma que possamos extrair das coisas aquilo que não é percebido pelos seres comuns que andam de olhos vedados e não sabem ler outonos, primaveras, invernos e verões antes do nada sumir do pensamento e tornar-se Alguém até depois do não-ser.