Eu fico observando comentários de gente que adjetiva a música de Marília Mendonça como “ruim” e até se incomoda por ela ter sido tão admirada. Em lugar de fazer esse tipo de crítica pedante e insensível, que mostra bem que estudo e conhecimento artístico e literário não são sinônimos de sensibilidade e humanismo, eu busquei foi aprender lições. E estou mexida, porque, de fato, há muito a aprender. Não há problema em não se gostar da música dela. O problema é, em um momento de dor para tanta gente, achar que o “parecer” que se quer dar sobre a qualidade ou não do que ela fez realmente importa. Puro ego. Puro pedantismo. Pura falta de humildade diante de uma verdade crassa: em nossas “ilhas” de pretensa erudição (o nós inclui artistas, escritores/as, intelectuais, professores/as, entre outros/as que costumam abracar com força o papel de formadores/as de “gosto”), estamos cada vez mais distantes do humano e mais parecidos/as com o personagem de Às avessas, de J. K. Huysmans: mal conseguimos disfarçar a aversão ao que é comum.

Muitas vezes tenho vergonha deste lugar no qual (não adianta) estou inserida (assim como, cabe dizer, também me entristeço de ver gente que quer reconhecimento artístico/literário sem fazer qualquer esforço para se aprimorar, para crescer, para exercitar o belo e necessário ato de aprender). No fundo, a humanidade é mesmo um saco sem fundo de  insensibilidade.

Talvez, como aconteceu com o personagem Des Esseintes (perdão pelo spoiler), muitas pessoas precisem passar a vida buscando o luxo estético, desprezando o gosto mais massificado, arrotando suas “listas de sucesso”, para chegar ao final da vida e descobrir que o suposto perfume perfeito tem cheiro de merda.

Eu me recolho à minha insignificância e tentarei pensar em como contribuir para que o sofrimento não seja o signo que move o coração do mundo. Não porque “decretei”, de um pedestal, que a “sofrência” é ruim. Que importa isso? Importa e dói é constatar com tanto impacto que sofrer parece ser a mola do mundo. Uma coisa é certa: com apenas 26 anos, Marília Mendonça fez muito muito mais que eu pelas pessoas. Porque, ao menos, ela compreendeu que há dores que precisam ser gritadas e compartilhadas. E eu, talvez, ainda esteja presa na tal ilha, buscando figuras de linguagem para fingir que finjo a minha dor (ego, ego, ego) e dando pouquíssimos e seletivos abraços.

Christina Ramalho
07.11.21