Não sou religioso do ponto de vista mais estrito da palavra. No entanto, alimento, em hoje em dia, certo sentimento de simpatia, de gosto, por certas figuras de distintas liturgias religiosas. Aprecio bem os provérbios bíblicos, vejo beleza nos poemas de Santo Agostinho, me encanto pelos sermões do Padre Antônio Vieira, rendo-me aos corais afinados das igrejas, além de ser fascinado pelos templos simples ou suntuosos que já vi em tantas cidades por onde passei. 

Das figuras cuja história a Igreja Romana divulga e reverencia, tenho especial interesse por São Francisco de Assis. De rapazote em vida mundana, tornou-se um dos mais singelos servos do Cristo amoroso, tão esquecido em nossos dias. Nascido a Itália na Idade Média, viveu entre 1181 a 1226. Uma vida breve, mas com ensinamentos que reverberam até os nossos dias no coração daqueles que se abre à voz missionária. 

Muito da popularidade de Giovanni di Pietro de Bernadone, seu nome de batismo, se deve à famosa “Oração de São Francisco”. O fato curioso em torno dessas palavras é que elas não são de autoria do santo italiano. Quando, em alguma roda de amigos ou momento de sala de aula, comento isso, causo espanto em quem me ouve. Logo desfaço os sustos e mostro que nada há demais nesse fato. O texto é de origem anônima e só foi publicado no século XX, ou seja, bem depois da morte física do santo. A primeira impressão data de 1912, mas somente, em 1916, houve vinculação ao religioso de Assis: um impresso em Roma trazia a oração de um lado e no outro o rosto de São Francisco. Isso bastou para que a associação se firmasse e popularidade dos versos crescesse ainda mais, o que ganhou mais pujança com versões musicais em vários idiomas.

Por que digo que não importa se a autoria é de Francisco? Porque entendo que se vivo estivesse, ele diria amém para cada uma dessas frases. Elas traduzem de forma ímpar a pensamento franciscano por meio do melhor caminho: a Poesia. Inspiradíssimo autor cujo nome desconhecemos, mas que soube a quem dedicar os seus versos e que, imbuído de um sentimento de devoção, tornou-os conhecidos. 

Se por um lado, não sabemos o nome desse bendito poeta anônimo, por outro temos a convicção a tônica da simplicidade e amor franciscanos bem se expressam nessas palavras. 

E sabemos bem mais que do que isso: nestes tempos de culto às armas, de louvor à linguagem chula e violenta e normalização do desmatamento e genocídio indígena, não é difícil deduzir em que fileiras estaria o santo de Assis. Padroeiro dos animais e de todo o meio ambiente, Francisco, adepto da paz, ficaria bem distante dessas coisas. Que tenhamos liberdade e paz para nos mantermos ao seu lado!