A fala da atriz Juliana Paes, publicada em vídeo e que se tornou um dos temas mais comentados no Twitter no dia 3 de junho, nos mostra o óbvio: o egoísmo de quem está na bolha da elite. Defende educadamente sua visão alienada de mundo (“delírios comunistas”… que ignorância!), mas ressalta que, quando teve ansiedade, foi às redes sociais compartilhar a experiência. 

É exatamente isto: quem vive dentro da bolha só se preocupa com profundidade, com verdade em estado de carne ferida, com a própria dor. Aí, sim, encontra motivos para ser “solidária”, e, “generosamente”, vai a público dizer (implicitamente) que mesmo uma “deusa” pode ter ansiedade. Assim, ela “contribui” para “humanizar” a ansiedade de outras pessoas. E, de fato, contribui, porque muita gente pensa que há pessoas que são mais pessoas que outras. Não por serem seres humanos melhores, mas por terem fama, riqueza e beleza. E se o famoso ou a famosa rico/a e belo/a tem ansiedade, então a ansiedade das pessoas comuns ganha consolo. É verdade. E é verdade porque, de fato, acontece. Mas ela vai a público falar de sua ansiedade porque, nessa condição individual, sente-se impulsionada a interagir com o mundo. É o individualismo com todas as letras.

No entanto, mais que as “ansiedades individuais transformadas em pauta coletiva”, estamos vivendo a MORTE de pessoas que estão longe (infinitamente longe) de serem ricas e famosas. Basta ver o que as estatísticas dizem sobre os perfis de quem mais morreu de COVID até agora. “Eu não me sinto no direito dizer às pessoas para não trabalharem”. Claro que não se sente. Porque não se preocupa verdadeiramente com o que dizem essas estatísticas. Porque, tal como imensa parcela da classe média e das parcelas mais privilegiadas, carrega implicitamente o lugar-comum do “tem que ensinar a pescar”, afirmação na qual acredita porque se vê “vitoriosa” após o “esforço imenso” de sua própria pescaria. Esse lugar-comum foi repetido por muita gente de minhas relações. Infelizmente para mim, claro, porque o discurso é proferido em tom de grande “ciência”.

O discurso da linda e bem articulada Juliana Paes é, portanto, o mesmo, ainda que com outras palavras, de muitíssima gente que conheço. E eu sinto muita pena de ter que reconhecer isso. Gente assim não votou “em Bolsonaro”, votou em si mesma. Votou em suas próprias “convicções” sobre pescarias, riqueza, liberdade, democracia, comunismo, corrupção, justiça. Não importava muito se a trajetória de quem mereceu seu voto direto ou indireto (no caso, quando a opção por anular ou não votar pareceu mais correta) era infame, violenta, medíocre, preconceituosa, mentirosa. Não importava, porque o próprio umbigo dita a atuação de pessoas como Paes.

O discurso é foda. Revela demais. Quando ela diz que quer um gestor elegante e bem articulado, sequer é capaz de perceber que Fernando Haddad era exatamente essa opção. Mas gente como ela não consegue raciocinar fora da bolha que criou a falsa ideia de “comunismo delirante” para justificar sua opção pelo mais abjeto caminho: o da mentira. Elegante é arregaçar as mangas e combater a crueldade e a tirania.

Paes, uma penca de outros/as famosos/as, um montão de pessoas que conheço e milhões que não conheço se sentem “dignas”, “isentas”, “equilibradas”, mas são incapazes de ver a indignidade, a ideologia opressora e o desequilíbrio de pessoas como a doutora Nise e o atual gestor. Uma médica que pratica a anti-medicina e dá sustentação ao descaso com a saúde pública. São incapazes de entender que estamos vivendo o mais nefasto período de nossa história, porque o país abraçou, pelo voto, armas, preconceitos, violência, mentiras e irresponsabilidade. São, assim, incapazes de lutar. Ao contrário, com sua “imparcialidade”, que revela soberba e ignorância, continuam contribuindo para que, também como apontam todas as estatísticas, o número de bilionários cresça cada vez mais. Ou, nas palavras mais corretas, a desigualdade no mundo seja ainda mais tenebrosa. 

No entanto, é preciso entender as mentalidades forjadas pelo capitalismo e suas derivações. E, depois de entender, é preciso chorar. Ou lutar. Eu luto. E estamos lutando em tempos de grande LUTO. Ainda que gente como Paes acuse nossa luta de “delírio comunista” e termine citando Deus, o que, sabemos, é, afinal, revelador.

Democracia é isso tudo. Mas quando a “democracia” promove maior desigualdade, faz crescer os preconceitos, se apoia em mentiras, nega a ciência, incentiva comportamentos perversos, toma a religião como propriedade, defende armamento e desmatamento, ignora a dor de quem nada ou pouquíssimo tem para enfrentar a vida, valoriza e premia milicianos, torturadores e falsos profetas, é imprescindível arregaçar as mangas e lutar, porque o sentido de uma prática que deveria ser saudável se perdeu e o que se tem é um abismo com acesso direto ao nono círculo do Inferno de Dante.

Se pessoas como ela escolheram pular no abismo (mesmo com trajes de festa e falando “em nome de Deus”), atribuindo tudo ao “desconhecido”, ao “que não se sabe”, nós, os “delirantes”, não saltaremos. Se tivermos que cair no abismo, será pelas mãos de gente como ela. Só um detalhe: em algum momento, asas nascerão em nós. Apenas em nós, que, em nosso delírio, conseguimos sentir e pensar além de nossas dores. Asas são feitas de empatia. Empatia e individualismo são conceitos incongruentes.

Em tempo: dizer que faz “caridade” secretamente é ridículo. Típico de quem, no final das contas, quer se agarrar ao papel de pessoa boa para justificar a decisão de, democraticamente, colocar-se fora de “polaridades”, sentando-se no trono vaidoso de uma “neutralidade” que, lamento informar, no Brasil de hoje, mata.

Pessoas assim é que são delirantes. Estão no andar principal do filme “O Poço”, achando que não cairão no abismo. 

Christina Ramalho

(nem rica, nem linda, nem famosa, mas em busca de um mundo com menos grifes e mais natureza, com mais júlios e mais gente capaz de lutar contra a tirania do materialismo e abandonar a miséria luxuosa de seu próprio umbigo).