Quando era jovem, costumava dizer, em forma de anedota, que estava desempregado há dezoito anos, precisava urgentemente dar um rumo na vida. O mercado de trabalho em Glória não era naquela época (e ainda não é) muito promissor para cadeirantes. Então ia me virando com o que me era possível. Desenvolvi ainda criança certa habilidade para o desenho, que foi aprimorada por meio de um curso feito por correspondência pelo antigo (não sei se ainda existe) Instituto Universal Brasileiro e assim, criando arte final para serigrafia, ia ganhando uns trocados. Cogitei ainda aprender eletrônica, imaginando que seria uma alternativa viável, mas não levei muito longe essa ideia.


Surgiu então um concurso público para o magistério municipal e, embora ainda estivesse no 1º ano do 2º Grau no antigo Colégio Glória, já poderia me inscrever. Foi o que fiz e tive a alegria de ser aprovado em 1º lugar no primeiro concurso a que me submeti. Sem planos prévios, sem representar necessariamente uma vocação ou um desejo íntimo, o magistério passou a ser a minha alternativa possível. Não se tratava de um projeto de vida, mas de uma oportunidade que se abria para mim e que deveria ser agarrada com determinação.

Antigo Colégio Glória


Vencidos alguns contratempos (o Secretário de Educação da ocasião estava relutante em me convocar, imagino que por causa de minha condição), finalmente fui lotado na escola Tiradentes no final do segundo semestre, salvo engano em novembro de 1989 (embora minha portaria oficial só tenha saído em abril de 1991), e adentrei aquelas salas de aula sem sequer imaginar que a Tiradentes faria parte significativa de um enorme pedaço de minha vida.


Designado para ensinar, tive, necessariamente, que aprender. Não houve uma preparação prévia, formação ou orientação, apenas me entregaram alguns livros e disseram: vá dar sua aula. E eu fui.


Nestas salas de aula, aprendi a aprender, para poder, eventualmente, ensinar. Aprendi que o mundo é bem maior que a minha experiência, nem tudo está ao meu alcance. Aprendi que só posso ver o que me é possível do meu ponto de vista, há sempre outra forma de se observar o mesmo fato.

Aprendi que cada um carrega sua história, suas marcas, tem seu ritmo e deve ser respeitado em sua individualidade. Aprendi a ser mais tolerante e mais solidário. Aprendi que é possível, na sala de aula, jogar sementes que germinarão muito além de nosso horizonte de visão e que podem transformar vidas, mas aprendi também que não é possível provocar as grandes mudanças que queremos na sociedade sem consciência de classe, união de esforços, parceria, colaboração e luta, muita luta por um sistema educacional que, de fato, possibilite condições efetivas de sucesso. Hoje, quando me perguntam sobre quem sou, imediatamente digo: sou professor. Aprendi a sê-lo na Tiradentes.

Na arte de ensinar


Curiosamente, ser professor tornou-se parte inerente de minha identidade. Apesar dos percalços, o magistério foi, pouco a pouco, constituindo-se, pela prática, em minha vocação, meu desejo mais íntimo de realização, meu projeto de vida. Projeto que realizei na Tiradentes durante mais de trinta anos. Se a vida pode ser entendida como uma grande busca em que nosso maior objetivo é encontrar a própria essência, naquela escola encontrei a minha, ali me encontrei.


Mas como diz o poeta: “a hora do encontro é também despedida”, pois “chegar e partir são só dois lados da mesma viagem” e hoje venho me despedir dos amigos e amigas que fiz nesta escola. Finalmente, recebi a declaração de aposentadoria e estou encerrando minha jornada na rede municipal. Gostaria de agradecer a companhia, o afeto, as vivências e o acolhimento de todos e todas. Peço desculpas pelas vezes em que fui intolerante ou insensível. Nem sempre correspondemos às expectativas que criam a nosso respeito. Deixo aqui meu abraço fraterno aos companheiros e companheiras de jornada.


Só não sei se vou me acostumar a dar outra resposta àquela indagação sobre quem sou. Acho que não vou responder “sou aposentado”. Sigo sendo professor.


Jorge Henrique Vieira Santos