De uns tempos para cá, passei a admirar mais as orquídeas. O que antes era um namoro de longe, sem a coragem de transformar o encanto num relacionamento, deu passos em direção a uma convivência que se solidifica nas miudezas. 

Afastava-me a fama de melindrosa. Temia que a vida corrida e atribulada que eu levava tornasse a relação infrutífera, um fracasso. Assim, a paixão permanecia apenas no olhar, no campo das ideias, sem se aprochegar na vida real. 

No entanto, a vida serenou, desacelerou. Se assim não fosse, o penar seria mais profundo. O que era proceloso teve que se aquietar. Com isso, descerrei o peito para remexer em empoeirados caminhos que há muito tinham sido esquecidos, sonhos que quase envelheceram. Ali reencontrei tintas, poemas, flores, notas musicais, edições, reedições, fotografias, sabores, em suma: uma gama de sinestesias que fazem a vida menos pesarosa. Os delineares que nos provam a todo instante o quão imprescindível é a Arte. 

Nessa ocasião, tomei a coragem para enveredar no mundo das orquídeas. Bastou a desculpa de uma promoção de fim de ano para levar a primeira para casa. Uma phaleanopolis foi coabitar comigo. Seguiram-se dias de leitura, notas e anotações para transplantá-la, acomodar substrato… e logo comprar mais duas plantas. Não sem antes recuperar na natureza troncos para serem abrigo das novas moradoras e das que adviriam também. 

Era a confirmação de que havia sido selado um enlace com os traços típicos do apaixonado que anda nas ruas a lembrar da pessoa amada, nela pensa com vigor e procura agradar ao alvo de sua paixão. Nisso esse sentimento ganhou os contornos de paixão irremediável, daquelas que se despem de receios de errar e se deixam de flanco aberto para o que vier. 

Meu espírito, contudo, ainda buscava compreender os porquês dessa afinidade/paixão. Cheguei a um consenso interior que me satisfez. Li nas entrelinhas da natureza das orquídeas um quê da natureza humana, das coisas que precisamos e de que tanto nos esquecemos. 

Orquidófilos logo aprendem que devem exercitar a paciência para verem o desenvolvimento e a floração de suas plantas estimadas. É essencial respeitar seus ciclos, aprender de suas necessidades e, sobretudo, aguardar o tempo de dormência em que a planta repousa e se prepara para florir. 

Notei, dessa sorte, o reflexo em espelho embaçado que me criava identidade com essas plantas. Percebi uma metafórica similaridade entre nossa humana natureza e as características das orquídeas. Necessidade de luz e alimento, um sustentáculo para se firmar, a existência de tempos de dormência e vigor, além de certa fragilidade. Somos, os humanos, também assim: melindrosos em fio tenso de vulnerabilidades, que pode nos esmorecer e matar; carecemos de alimentar corpo, mas também o ânimo do profundo cerne; dependemos de um esteio para nos segurarmos. A bem de nossa saúde (particularmente, a mental) e desenvolvimento, demandamos uma pausa, de uma dormência para reconstrução, uma refeitura de trajetória.

É provável que me observem uma hipérbole, uma superinterpretação. Que seja! Ouso, a meu modo, ler no livro do mundo que não somos armas, mas acreditar que somos como as orquídeas:  somos uma promessa, como as belezas de um rio intermitente, somos flores que aguardam para espraiar.